Voyeur (2017), trinta anos de “loucura”

Em Voyeur, um documentário realizado por Myles Kane e Josh Koury, vemos Gay Talese, um importante jornalista literário norte-americano, na construção do seu livro The Voyeur’s Motel, onde Gerald Foos, antigo proprietário de um Motel no Colarado, decide assumir que durante 30 anos praticou voyeurismo para com os seus clientes.

Fotografia do Motel de Foos, onde este foi voyeur.
Fotografia do Motel de Foos, onde este foi voyeur.

Durante todo o documentário o espetador é confrontado com uma quantidade significativa de incongruências no discurso de Foos: datas trocadas, alegados homicídios e, até, a venda do motel a um amigo, revelada apenas do final da película…

Apesar dessa falta de coerência Talese deposita em Foos confiança visto ter estado no local onde tudo aconteceu, tendo sido, certa noite, também voyeur.

Talese e Foos numa das entrevistas para o livro.
Talese e Foos numa das entrevistas para o livro.

Foos, vai-se revelando perante as câmaras, tornando-se no observado ao invés de observador. Parece ter problemas mentais que se acentuam com o isolamento em que vive com a sua mulher, Anita. Chega mesmo a afirmar que adora as pessoas que filmam o documentário, reconhecendo que são tudo o que ele tem.

Gerald Foos, com a mulher Anita.
Gerald Foos, com a mulher Anita.

O filme saltita entre Foos e Talese, como se saltitasse entre a verdade e a mentira. Uma maquete do hotel, com Foos a observá-la ajuda o espetador a credibilizar o que nos é contado.

“Eles não me conseguiam ouvir. Não me conseguiam ver. Mas eu conseguia vê-los e ouvi-los”. Assim começa Foos, a desvendar um segredo de 47 anos, que lhe permitiria por um lado, fama e sequentemente dinheiro e, por outro lado, a redenção perante Deus, de que é crente e que faz questão de referenciar várias vezes durante o documentário.

Anúncios

Hiroshima, Mon Amour (1959), a memória e o esquecimento

Do famoso cineasta Alain Resnais, este filme apresenta-nos, embora de uma forma simbólica, a memória da bomba atómica, que em 1945, arrasou a cidade japonesa de Hiroshima.

As duas memórias desse mesmo acontecimento, uma interna – a do japonês (Eiji Okada), cuja família faleceu em Hiroshima – e a outra externa – a da francesa (Emmanuelle Riva), que parte de Nevers para Paris, depois do assassinato do seu grande amor, o soldado inimigo alemão e sequente castigo pela desonra – cruzam-se, resultando daí uma intensa história de amor.

O japonês relembra à francesa o seu falecido namorado. A forma como o japonês mexe as mãos enquanto dorme, tal e qual como mexeu o alemão antes da morte…

Hiroshima Mon Amour 1

À semelhança da história de amor que viveu com o alemão, o amor que se desenvolve entre ela e o japonês é também proibido, isto porque ambos são casados e porque a sua estadia em Hiroshima terminará em poucas horas.

Para além das imagens de arquivo, que reforçam todo o sofrimento causado pela bomba, o realizador recorre constantemente a jogos de luz e sombra que se fazem sentir sobre os atores, como que a representar o sofrimento, o esquecimento do sofrimento e a memória que restou desse sofrimento.

Hiroshima Mon Amour 2

Embora a francesa não tenha vivido de perto Hiroshima, aquando do rebentamento da bomba, a sua memória construiu uma Hiroshima própria (a morte do seu primeiro amor e a clausura) que, tal como a cidade, teve de renascer das cinzas.

Homossexuais no Estado Novo de São José Almeida

Este livro, cuja primeira edição data de 2010, “é uma primeira tentativa de abordagem do que foi a realidade dos homossexuais em Portugal durante praticamente todo o século XX, ou seja, desde que a jovem Primeira República, enquadrada pela psiquiatria, coloca sob a alçada da lei os crimes contra a natureza até que estes o deixam de ser, em 1982”.

É do conhecimento geral que os regimes totalitários estigmatizaram profundamente os homossexuais, e recordo-me, por exemplo, da Alemanha nazi.  Mas, quando falamos do caso português, serão poucos os que conhecem a segregação pela qual passaram os homossexuais no Estado Novo.

O ideal de família burguês, a sociedade machista e patriarcal – que realça o papel da mulher como serva do seu “destino biológico” -, foram fatores que contribuíram substancialmente para a criminalização, perseguição e descriminação de pessoas não portadoras da hetero-normatividade, claramente obrigatória.

As classes sociais, mais uma vez e como em tudo, ditaram o tratamento por parte do regime para com a homossexualidade. As classes altas, afiliadas ao regime, podiam viver a sua sexualidade em paz, desde que sem escândalos. Aos “homossexuais de baixa categoria” restava o cuidado, para não serem apanhados a cometer crimes contra a moral.

No meio cultural a homossexualidade, como ainda hoje, era vivida de uma forma mais aberta. Mas, mesmo assim, não impediu que escritores como António Botto ou Judith Teixeira fossem “dizimados” da literatura portuguesa, e no caso de Judith, dizimada até hoje.

As repercussões desta repressão perpetuam-se até hoje, e mesmo quando a justiça já reconheceu o direito à igualdade por parte dos homossexuais – através do casamento homossexual e da fertilização in vitro, que pode ser feita por um casal de lésbicas –  ainda se teme, e muito, a chamada “justiça do povo”.

Falta a Portugal uma cultura gay, capaz de ajudar a desmistificar não só a homossexualidade, mas também a transexualidade e o travestismo.

“O que era ser homossexual em Portugal? O que é viver uma condição estigmatizada e estigmatizante, em que não há identidade, tão-só uma afetividade e uma sexualidade, quase sempre clandestinas?” Estas e outras perguntas podem ser respondidas através da leitura desta obra literária, tão necessária quanto as próximas que surgirão sobre esta temática.

Frida (2002), mulher, pintora e militante

Baseado no livro Frida – Uma Biografia de Frida Kahlo de Hayden Herrera, este filme revela-se como uma espécie de quadro em movimento que vai desvendado a pouco e pouco – embora assumindo também um quanto de ficção – quem foi Frida Kahlo.

Acompanhamo-la desde a sua adolescência até à sua morte: o acidente de autocarro cujas mazelas se perpetuaram até ao fim, os dois casamentos com o mesmo homem, o aborto que sofreu, as aventuras sexuais que não se limitaram apenas ao sexo masculino, a sua militância pelo partido comunista e a origem das suas obras.

Frida (2)

Julie Taymor, a realizadora, trata com grande delicadeza a vida de Frida, realçando a sua coragem perante as adversidades que teve de enfrentar e que foram a inspiração para as suas pinturas.

Taymor apresenta as obras da pintora de uma forma genial – embora tal opção não seja nova – as obras ganham vida e passam a ser também elas cenário do filme, onde, por exemplo, Frida personagem se transforma em Frida pintada.

Através desta metragem ficamos com a certeza de que Frida não foi apenas uma mulher cuja vida se resumiu ao sofrimento.

Ficamos com a ideia que a sua maior fraqueza não seria a debilidade física mas sim o amor que sentia por Rivera, um homem a quem a fidelidade não assistia.

Frida (3)

Newness (2017), um filme sobre as relações da atualidade

Depois de se relacionarem com várias pessoas, por intermédio de um aplicativo móvel, Gabi (Laia Costa) e Martin (Nicholas Hoult) acabam por cruzar caminhos, embarcando numa relação aparentemente madura mas que se agita com o passar do tempo.

Durante a primeira meia hora, aproximadamente, o filme entusiasma-nos: apresenta-nos as personagens, a forma como estas vivem a sua vida, os seus trabalhos e os seus encontros através da app

Mas, aos poucos, o filme começa a perder o fôlego, instala-se o drama, e nem mesmo a agitação da relação dos protagonistas, através da concretização de várias fantasias sexuais envolvendo terceiros, permite ao espetador recuperar o entusiasmo seguindo este aborrecido até ao final.

As relações abertas ou, melhor dizendo, não monogâmicas (até certo ponto) estão e estarão cada vez mais presentes nas nossas vidas e, neste sentido, é importante que sejam trabalhadas, não só pelo cinema como por outras artes, para se facilitar a sua inclusão social.

Infelizmente o filme não as encara, às relações abertas, com o objetivo acima citado. Isto porque Gabi afirma, já perto da conclusão do filme, que está farta de ter uma relação “assim” e que está na altura de viver com Martin uma relação a sério.

É principalmente neste ponto que o filme desilude, ao lançar a ideia de que uma relação que não seja a dois não é de todo uma relação “a sério”.

1

Apesar da narrativa pobre, a interpretação dos atores é convincente, ao mesmo tempo que é comovente.

Gabi que se apresenta como uma jovem sem pudores é, também, ingénua, deixando-se levar por Larry (Danny Huston), um homem bastante mais velho que acaba por tratá-la como se esta fosse uma “vendida”, que apenas está ao lado dele porque este lhe oferece regalias em troca.

Já Martin, que no início tem dificuldades em falar sobre o seu passado, surpreende positivamente o espetador devido à densidade que adquire ao longo da trama e que resulta dos problemas que enfrentou, como a morte da irmã ou o aborto da ex-mulher.

A temática relativa às tecnologias, e nomeadamente a das relações digitais, é destacada no filme por diversas vezes: através dos primeiros encontros, do romance de Gabi e Martin, das fantasias que concretizam.

App

Esta é, certamente, uma das consequências da vida fugaz da modernidade, que faz o espetador refletir sobre si e sobre a sua relação, quase que (se não mesmo), obcecada por elas.

_______

Nota:

Passados 50 minutos de filme sucedem-se uma série de planos onde os protagonistas estão deitados na cama a discutir sobre a possibilidade da sua relação se tornar aberta. Gabi encontra-se do lado direito da cama (1ª imagem) e Martin do lado esquerdo (2ª imagem), sendo que o primeiro plano se vai alternando entre um e outro à medida que cada um fala.

Entretanto vemos um plano geral do quarto e os protagonistas assumem posições distintas das iniciais na cama (3ª imagem).

Findo este plano voltam às primeiras posições.

Propositada ou não, a verdade é que esta série destabiliza a fluidez do filme parecendo ser uma falha significativa, provavelmente, da pós-produção.

 

Photography: The Definitive Visual History de Tom Ang

Photography: The Definitive Visual History ou Fotografia: A História Visual Definitiva é um livro absolutamente obrigatório para os verdadeiros entusiastas da fotografia ou não fosse ele uma verdadeira bíblia da fotografia que a relata desde os seus primórdios até aos dias de hoje.

Tom Ang, o autoroptou por analisar a história da fotografia dividindo-a segundo blocos temporais, apresentando-nos a sua evolução, inovação e pontos marcantes.

1

Apresenta-nos, também, perfis fotográficos importantes como, por exemplo, os casos de Nadar ou de Sebastião Salgado.

2

Analisa ainda, fotografias que marcaram a nossa história como Boulevard du Temple, Paris, captada a 1838 por Daguerre ou The Steerage, captada em 1907 por Alfred Stieglitz.

É um livro absolutamente fabuloso, cujas quatrocentas páginas nunca o tornam aborrecido, tornando-se viciante à medida que é folheado e apreciado.

Para nossa infelicidade não existe, pelo menos por enquanto, tradução para português, no entanto, existe tradução em espanhol que se designa por Fotografía: La Historia Visual Definitiva.

Lucifer (2016-), a série que personifica o diabo

Baseada na banda desenhada intitulada The Sandman, a série apresenta-nos uma narrativa em volta do diabo, que aborrecido com a sua posição de senhor dos infernos decide habitar a cidade de Los Angeles.

Devido aos poderes que possui e à sua especialidade em punir quem faz o mal encaixa que nem uma luva no departamento de homicídios da polícia da cidade, onde desempenha a função de conselheiro civil.

Lucifer - Ep 2
Lucifer – Temporada 1

Tom Ellis, ator que interpreta Lucifer Morningstar, revela ser a escolha ideal para desempenhar o papel.

Nascido no Reino Unido, transfere para a personagem o sotaque british, sotaque que se alia a um Corvette de 1962 e, ainda, a fatos de marcas conceituadas.

Esta representação do diabo, que para além de personificada é absolutamente glamorosa, vai de encontro a praticamente todas as representações do diabo com as quais já fomos confrontados.

Lucifer - T2
Lucifer – Temporada 2

Apesar de todo o potencial da série a verdade é que esta apresenta constantemente incoerências que fazem com que se vá perdendo entusiasmo nela.

Em primeiro lugar está a relação de Lucifer com Chloe (interpretada por Lauren German), que anda para a frente e para trás chegando ora a parecer que ficarão juntos, ora a parecer que nada sentem um pelo outro românticamente.

Seguem-se os casos que investigam, onde todos os homicídios são resolvidos sem exceção e quase todos têm uma qualquer ligação a Lúcifer.

Lucifer - T3
Lucifer – Temporada 3

À exceção da presença do anjo caído e de outras personagens mais ou menos celestiais, é muito fácil perdermos o foco, sentindo, por vezes, estarmos a ver uma espécie de CSI acompanhado de uns quantos efeitos especiais.

No geral, é uma série com capacidade de entretenimento, cujo humor não passa certamente despercebido, ideal para descomprimir de outras séries mais densas do ponto de vista narrativo.